Entrevistas a diversos profissionais sobre diferentes temas da telessa√ļde. Um espa√ßo para contributos e para partilha de conhecimentos.

Equipa Regional da Telemedicina/Telessa√ļde da ARS do Alentejo

1.¬†Porque sentiram necessidade de certificar os servi√ßos de telessa√ļde?

Na regi√£o de sa√ļde do Alentejo, em virtude das caracter√≠sticas sociodemogr√°ficas da popula√ß√£o, das dist√Ęncias significativas entre prestadores de cuidados de sa√ļde e tamb√©m da falta de m√©dicos nalgumas especialidades, h√° v√°rios anos que t√™m vindo a ser desenvolvidos projetos/programas direcionados para minimizar o impacto destas caracter√≠sticas na acessibilidade dos utentes da regi√£o a cuidados de sa√ļde de qualidade.
Foi precisamente neste contexto que, em 1998, a ARS do Alentejo deu in√≠cio √† implementa√ß√£o do Programa de Telemedicina do Alentejo, tendo sido uma das primeiras regi√Ķes do pa√≠s a apostar na telemedicina como forma de melhorar a acessibilidade e a equidade no acesso a cuidados de sa√ļde.
Foi, para o efeito, realizado um investimento em infraestruturas de suporte, na sua maioria com recurso a cofinanciamento comunit√°rio atrav√©s do Programa Operacional da Sociedade do Conhecimento (POS_C) e do Inalentejo/QREN, o que permitiu ter hoje uma rede organizada de telemedicina na regi√£o, composta por 26 plataformas de telemedicina, em funcionamento em 20 unidades de cuidados de sa√ļde prim√°rios, 5 hospitais e na sede da ARS.
Entre 2010 e 2016, realizaram-se mais de 21.700 teleconsultas na região, em especialidades como Dermatologia, Neurologia, Cirurgia, Ortopedia, Medicina Física e Reabilitação, Pediatria, Gastroenterologia, Psiquiatria, Pneumologia, Imunohemoterapia, Cardiologia, Consulta da Tiróide, entre outras.
Por outro lado, aproveitando as potencialidades do equipamento instalado em toda a regi√£o para realiza√ß√£o de teleconsultas, entendeu-se como uma mais valia utiliz√°-lo tamb√©m para disponibilizar a todos os profissionais de sa√ļde uma oferta formativa de qualidade, √† qual podem aceder sem sair do seu local de trabalho ou, eventualmente, deslocando-se a locais mais pr√≥ximos. Assim, deu-se in√≠cio em 2008 √† realiza√ß√£o de a√ß√Ķes de teleforma√ß√£o, emitidas por videoconfer√™ncia (primeiro ponto a ponto e mais tarde ponto-multiponto), o que permitiu entre 2008 e 2016, formar mais de 3.400 profissionais e aproximar as unidades de sa√ļde atrav√©s de um espa√ßo de partilha de projetos, realidades e experi√™ncias, bem como rentabilizar o tempo dos profissionais e os recursos financeiros dispon√≠veis.
Foi pois neste contexto, e já com um vasto trabalho desenvolvido e consolidado que se decidiu em 2012, avançar para a implementação do Sistema de Gestão da Qualidade (nos termos da norma ISO 9001: 2008), permitindo dotar o programa de ferramentas de suporte à organização e estruturação de toda a atividade, sistematizando processos, normalizando as atividades e os procedimentos e introduzindo mecanismos de controlo e monitorização da atividade.
A certificação surgiu pois, como uma consequência natural de todo o trabalho já desenvolvimento e da existência de um Sistema de Gestão da Qualidade já devidamente estruturado e estabilizado. Assim, decidiu o Conselho Diretivo da ARS do Alentejo, em 2013, abrir procedimento concursal para a certificação do Sistema, o que se veio a concretizar já em 2014 com a atribuição da certificação, pela APCER, para as áreas de Telemedicina e Teleformação, em conformidade com a norma ISO 9001: 2008.

2. Explique-nos sucintamente  o processo de certificação?

O processo de certifica√ß√£o, como referido anteriormente, s√≥ foi despoletado porque a ARS do Alentejo teve o cuidado de implementar no Programa de Telemedicina do Alentejo um Sistema de Gest√£o da Qualidade estruturado tendo em considera√ß√£o todos os requisitos da norma ISO 9001:2008, aplic√°veis. Este foi o primeiro passo, que permitiu, √† ARS, criar todas as condi√ß√Ķes para requerer a certifica√ß√£o.
O processo de certifica√ß√£o propriamente dito, teve in√≠cio com a abertura de um procedimento concursal com consulta a v√°rias entidades, desenvolvido ao abrigo do c√≥digo de contrata√ß√£o p√ļblica vigente, e que permitiu √† ARS contratar os servi√ßos de uma entidade certificadora, neste caso a APCER.
Ap√≥s contratada a entidade certificadora, que designou uma equipa auditora e um t√©cnico gestor do processo, foi agendada a primeira auditoria (auditoria de concess√£o 1.¬™ fase), com a dura√ß√£o de meio dia para an√°lise da documenta√ß√£o do Sistema. Ap√≥s a realiza√ß√£o desta primeira auditoria, da qual resultou um relat√≥rio com identifica√ß√£o de n√£o conformidades/oportunidades de melhoria ao Sistema, foi agendada uma segunda auditoria (auditoria de concess√£o 2.¬™ fase), com a dura√ß√£o de um dia, em que a equipa auditora voltou a analisar todos os documentos do sistema (Manual, Procedimentos, Instru√ß√Ķes de Trabalho, modelo, registos, etc.) e realizou visita aos locais em que se regista a atividade. Como resultado desta segunda auditoria, foi emitido novo relat√≥rio, com an√°lise do sistema, identifica√ß√£o de n√£o conformidades/oportunidades de melhoria ao Sistema e an√°lise da conformidade do sistema face √† certifica√ß√£o requerida. Foi ent√£o, ap√≥s resposta √†s n√£o conformidades/oportunidades de melhoria levantadas que a APCER concedeu √† ARS do Alentejo a certifica√ß√£o do Programa para as √°reas da teleconsulta e teleforma√ß√£o.
Após a emissão da certificação foram agendadas auditorias anuais (auditorias de acompanhamento), em que a APCER atestou a manutenção da certificação mantendo-se o cumprimento dos requisitos da norma.
A ARS do Alentejo tem o sistema certificado até Setembro de 2017, devendo entretanto ser aberto um novo procedimento concursal para aquisição do serviço de certificação, uma vez que o contrato com a APCER já terminou.

3. Quais as maiores dificuldades no processo?

A estrutura√ß√£o do Sistema de Gest√£o da Qualidade, em si, n√£o apresenta grandes dificuldades, sendo uma quest√£o de organizar a atividade tendo em conta os requisitos da norma e considerando as necess√°rias adapta√ß√Ķes em fun√ß√£o do tipo de atividade que √© desenvolvido.
No entanto, considerando que o programa de telemedicina do Alentejo se desenvolve (quer as teleconsultas, quer a teleforma√ß√£o) em toda a regi√£o de sa√ļde do Alentejo, com o envolvimento de unidades de sa√ļde hospitalares, de unidades de cuidados de sa√ļde prim√°rios e tamb√©m com um estrutura de apoio na ARS, a uniformiza√ß√£o de procedimentos e articula√ß√£o das estruturas das v√°rias entidades, incluindo a sensibiliza√ß√£o dos profissionais para os requisitos da gest√£o da qualidade foi talvez o aspeto que exigiu mais tempo √† equipa de apoio que implementou o Sistema.
Por outro lado, a própria complexidade da norma exigiu um trabalho de organização e sistematização da atividade que foi moroso e difícil de operacionalizar.

4. Que balanço fazem e quais os reais ganhos?

O balan√ßo da implementa√ß√£o do Sistema de Gest√£o da Qualidade no Programa de Telemedicina do Alentejo, mais do que a certifica√ß√£o em si, foi muito positivo porque permitiu organizar e estruturar toda a atividade da regi√£o, melhorar o acompanhamento e monitoriza√ß√£o, melhorar a articula√ß√£o entre as v√°rias unidades de sa√ļde e profissionais, permitindo certamente ganhos de efici√™ncia e qualidade na presta√ß√£o do servi√ßo.
A certificação, por outro lado, permitiu dar visibilidade ao sistema de gestão da qualidade e ao Programa de Telemedicina, permitindo o seu reconhecimento enquanto um serviço de qualidade prestado pela e na região.

5.¬†Que sugest√Ķes deixaria a um profissional que esteja para iniciar servi√ßos de telessa√ļde?

√Č muito importante a exist√™ncia de um referencial estruturante da atividade a desenvolver. O sistema de gest√£o da qualidade permite precisamente isso, ou seja, dar √† entidade um referencial de conduta, mas para al√©m disso, permite estruturar todo o acompanhamento e monitoriza√ß√£o da atividade, controlando todos os processos e permitindo atuar em caso de falha.
A implementação não é fácil, exige muita disponibilidade e empenho dos profissionais envolvidos quer para definir o sistema, adaptá-lo aos requisitos da norma e mantê-lo operacional, atualizado e monitorizado, mas efetivamente os ganhos em termos de qualidade e eficiência são evidentes.
Em suma dir√≠amos a qualquer profissional que fosse iniciar servi√ßos de telessa√ļde que dessa forma estaria tamb√©m a contribuir para a melhoria da acessibilidade aos cuidados de sa√ļde por parte dos utentes bem como √° melhoria da qualidade da presta√ß√£o de cuidados de sa√ļde.
√Čvora, junho de 2017

No artigo de opini√£o, ‚ÄúComo a telessa√ļde est√° a mudar a sa√ļde em Portugal‚ÄĚ, publicado no dia 5 de maio na revista Pontos de Vista, Micaela Monteiro, Diretora do Centro Nacional de TeleSa√ļde (CNTS) e Coordenadora do Centro de Contacto do SNS, sob a responsabilidade da SPMS, EPE, explica as vantagens da telessa√ļde, atrav√©s de casos concretos de boas pr√°ticas.

Como a telessa√ļde est√° a mudar a sa√ļde em Portugal, Micaela Monteiro

Incentivar o desenvolvimento da telessa√ļde no sistema de sa√ļde portugu√™s √© um dos prop√≥sitos do CNTS. A telemonitoriza√ß√£o e as teleconsultas j√° s√£o uma realidade em Portugal, capacitando o doente na gest√£o conjunta da sua doen√ßa com os profissionais e facilitando a comunica√ß√£o e articula√ß√£o entre profissionais. Contribuem, assim, para uma melhor utiliza√ß√£o dos recursos existentes, aproximam o SNS ao cidad√£o e levam a poupan√ßas de tempo e dinheiro.

‚ÄúAs tecnologias de informa√ß√£o s√£o cada vez mais ferramentas poderosas para criar novas formas de presta√ß√£o de cuidados de sa√ļde. A digitaliza√ß√£o da sa√ļde n√£o √© apetrechar os hospitais, centros de sa√ļde e a casa do doente com gadgets ligados a internet. √Č mudar a forma como os profissionais se organizam em torno do doente e da sua fam√≠lia. √Č permitir ao doente e aos seus cuidadores um papel muito mais ativo na gest√£o da doen√ßa‚ÄĚ, s√£o algumas afirma√ß√Ķes de Micaela Monteiro.

Poderá ler o artigo na íntegra aqui .

Rui Alves Filipe, Nefrologista

1. Como desenharam/pensaram o modelo organizacional de teleconsultas na ULS de Castelo Branco?

O processo foi iniciado escolhendo, inicialmente, apenas 4 especialidades hospitalares e 2 centros de sa√ļde de modo a que pud√©ssemos dar o m√°ximo de apoio poss√≠vel com forma√ß√£o diferenciada e ao mesmo tempo realizar um acompanhamento adequado para podermos corrigir erros processuais e log√≠sticos.

 


2. Como tem sido estruturado o agendamento e a realização das consultas?

Ap√≥s ausculta√ß√£o dos profissionais dos cuidados de sa√ļde prim√°rios decidiu-se que todas as especialidades deveriam ter um hor√°rio de manh√£ e outro de tarde para poder abranger todo o tipo de hor√°rios praticados nos Centros de Sa√ļde. O processo de agendamento inicia-se quando o m√©dico hospitalar decide pela realiza√ß√£o da consulta em TeleSa√ļde. Ao ser colocada essa informa√ß√£o no Alert P1 ou via pedido interno automaticamente o secretariado do hospital contacta com o Centro de Sa√ļde para marca√ß√£o de consulta s√≠ncrona no m√©dico de fam√≠lia numa data e hora para ambos dispon√≠vel.

3. Quais as maiores dificuldades no processo de implementação?

A coordena√ß√£o administrativa foi um desafio mas gra√ßas ao profissionalismo de todos os profissionais os problemas s√£o ultrapassados √† medida que s√£o colocados. A maior dificuldade diria que √© a “primeira consulta”. H√° sempre alguma resist√™ncia/desconforto em rela√ß√£o √† utiliza√ß√£o deste novo modelo. Ap√≥s a primeira utiliza√ß√£o tudo fica mais f√°cil e temos tido o apoio (e por vezes alguma paci√™ncia quando alguma coisa n√£o corre como queremos) de todos os profissionais.

4. Relativamente à dinamização e implementação de teleconsultas multidisciplinares, pode explicar-nos como foi estabelecida a relação entre pares para a sua concretização e como tem estado a decorrer?

Foram feitas circulares informativas para esclarecimento mas o contacto tem sido interpares do modo mais individualizado possível.

5. Que balanço fazem e quais os reais ganhos?

Os ganhos v√£o muito al√©m da vantagem que todos pensamos em primeiro lugar: diminui√ß√£o de viagens por parte dos utentes. As vantagens deste ponto n√£o precisam de ser enumeradas, mas os ganhos resultantes do interc√Ęmbio entre m√©dicos hospitalares e de Medicina Geral e Familiar s√£o muito relevantes, nomeadamente na vertente preventiva.
Importa real√ßar os avan√ßos que a TeleSa√ļde imp√Ķe no capitulo da integra√ß√£o Cuidados de Sa√ļde Prim√°rios vs Hospital no que diz respeito √† √°rea administrativa e das v√°rias tecnologias de informa√ß√£o. Apenas institui√ß√Ķes j√° desmaterializadas, ou a caminho de tal prop√≥sito, conseguem a realiza√ß√£o da TeleSa√ļde do modo eficiente como se deseja.

6. Que recomenda√ß√Ķes daria a profissionais que estejam interessados em iniciar a implementa√ß√£o de teleconsultas?

A envolv√™ncia dos profissionais √© essencial. S√≥ percebendo as vantagens desta abordagem do utente √© poss√≠vel implementar a TeleSa√ļde para o futuro. Porque s√≥ se a PDS live entrar na nossa rotina √© que n√£o cair√° num mero epis√≥dio da hist√≥ria do SNS. √Č verdade que houve outras tentativas de implementa√ß√£o destas tecnologias, mas penso que atingimos a maturidade tecnol√≥gica e organizacionais necess√°rias para a implementa√ß√£o deste modelo.

 

Linkedin: Rui Alves Filipe: https://www.linkedin.com/in/rui-alves-filipe-99411442/

ANEXO: RELAT√ďRIO DA TELECONSULTA ULSCB_13_06_2017

Lino Gonçalves, Director do Serviço de Cardiologia do CHUC

1. Como desenharam/pensaram o modelo organizacional de teleconsultas de cardiologia no CHUC? Como tem sido estruturado o agendamento e a realização das teleconsultas?

O nosso modelo organizacional foi estruturado de forma a que a comunica√ß√£o com os centros de cuidados de sa√ļde prim√°rios fosse regular, tendo cada centro de cuidados de sa√ļde prim√°rios dias e hor√°rios espec√≠ficos todos os meses, permitindo assim que os colegas especialistas de Medicina Geral e Familiar prepararem a apresenta√ß√£o e a discuss√£o dos casos cl√≠nicos de cardiologia. O pedido de teleconsulta √© efetuado atrav√©s do Alert P1 e depois as secret√°rias do servi√ßo de cardiologia marcam para um dos pr√≥ximos hor√°rios dispon√≠veis para esse centro de cuidados de sa√ļde prim√°rios, sendo os colegas informados da respetiva marca√ß√£o.

2. Quais as maiores dificuldades no processo de implementação?

As maiores dificuldades t√™m-se verificado na dificuldade em ter ‚Äútempo dedicado‚ÄĚ a estas teleconsultas, sendo elas efetuadas devido ao entusiasmo e dedica√ß√£o dos profissionais de sa√ļde de ambos os lados (Medicina Geral e Familiar e Cardiologia) em benef√≠cio dos seus doentes. Estas atividades acabam por se sobrepor a todas as restantes atividades de rotina, o que √© um fator limitante. Sem d√ļvida alguma que a exist√™ncia de tempo dedicado a estas atividades seria um fator de facilita√ß√£o muito importante para que estas teleconsultas tivessem ainda maior sucesso.

3. Que balanço fazem e quais os reais ganhos?

Na nossa experi√™ncia, a qual tem sido muito positiva, a teleconsulta reduz o n√ļmero de doentes enviados para o Hospital em cerca de 80%, reduzindo assim os custos relacionados com os transportes, reduzindo o absentismo ao trabalho, poupando tempo precioso aos utentes e suas fam√≠lias. Para al√©m disso, ajuda a resolver muitos problemas cl√≠nicos nos pr√≥prios centros de sa√ļde, com o apoio e com a partilha de responsabilidade com os colegas da cardiologia. Melhora assim a imagem dos centros de sa√ļde aos olhos da popula√ß√£o pois assim conseguem resolver muitos dos seus problemas cardiovasculares no seu pr√≥prio centro de sa√ļde perto da sua casa. Reduz ainda o tempo de referencia√ß√£o para consulta externa no hospital e permite o diagn√≥stico e tratamento mais precoces dos doentes. Melhora sem qualquer tipo de d√ļvida a comunica√ß√£o entre os colegas de MGF e os cardiologistas e entre os CS e os hospitais. Finalmente, √© importante para a educa√ß√£o m√©dica continuada dos profissionais de sa√ļde envolvidos.

4. Que recomenda√ß√Ķes daria a profissionais que estejam interessados em iniciar a implementa√ß√£o de teleconsultas?

Devem contactar centros que j√° estejam ativos e procurar reproduzir esta nossa experi√™ncia. Dever√£o contactar a ARS da sua zona solicitando a instala√ß√£o, caso ele ainda n√£o exista, do equipamento necess√°rio para a telemedicina no seu Centro de Sa√ļde bem como no Servi√ßo de Cardiologia da sua zona de refer√™ncia. Dever√£o ainda contactar o servi√ßo de cardiologia do hospital da sua zona de refer√™ncia e agendar dias e horas para a realiza√ß√£o das teleconsultas.

Rui Nêveda, Médico Pneumologista Centro Hospitalar do Alto Minho

1. De que forma os Sistemas de Informa√ß√£o (SI) da Sa√ļde t√™m contribu√≠do para a melhoria da qualidade de vida dos pacientes com doen√ßa pulmonar obstrutiva cr√≥nica (DPOC)?
A DPOC é uma doença crónica respiratória, mas cada vez mais assume-se como uma doença multissistémica em que as comorbilidades assumem um papel de relevo, traduzindo-se numa morbilidade e mortalidade crescente só ultrapassada pelas doenças cardiovasculares.
As agudiza√ß√Ķes, maioritariamente de causa infeciosa e mais frequentes no est√°dio avan√ßado da doen√ßa, contribuem para o aumento do n√ļmero de epis√≥dios de urg√™ncia e de internamentos hospitalares com enormes custos familiares, sociais e econ√≥micos, refletindo-se negativamente na qualidade de vida do doente e fam√≠lia envolvente.
A progress√£o da doen√ßa contribui tamb√©m para uma menor toler√Ęncia ao esfor√ßo do doente o que leva a um afastamento progressivo da sua atividade normal, do afastamento dos amigos e fam√≠lia entrando numa espiral negativa com depress√£o e isolamento.
Os Sistemas de Informa√ß√£o (SI) da Sa√ļde podem contribuir para uma melhoria da qualidade de vida destes doentes, intervindo atempadamente e no domic√≠lio do doente, que √© o seu habitat natural.

2.No caso da telemonitorização, que impacto tem na rotina diária dos doentes?
A Telemonitoriza√ß√£o, tamb√©m referida como monitoriza√ß√£o remota de doentes, permite, quando utilizada uma plataforma tecnol√≥gica profissional especializada, o acesso de uma forma adequada a diversas tecnologias de media√ß√£o de par√Ęmetros vitais e de comunica√ß√£o, monitorizando os estados fisiol√≥gicos e condi√ß√Ķes de sa√ļde dos doentes, a partir de casa ou mesmo em movimento.
Esta presta√ß√£o de servi√ßo pretende melhorar a qualidade dos servi√ßos prestados aos cidad√£os, fazendo com que se sintam acompanhados de forma cont√≠nua na sua doen√ßa, reduzir o n¬ļ de agudiza√ß√Ķes (e idas SU, internamentos‚Ķ), seguir de forma proativa e cont√≠nua as flutua√ß√Ķes das condi√ß√Ķes de cada doente, permitindo, assim, uma rea√ß√£o atempada que adie o mais poss√≠vel o agravamento da doen√ßa.

3. Como foi projetado o modelo organizacional da telemonitorização no Hospital de Viana do Castelo?
A Unidade Local de Sa√ļde do Alto Minho (ULSAM) participa num Projeto-piloto de Telemonitoriza√ß√£o, financiado pela ACSS, que envolve 15 doentes inst√°veis com DPOC (pelo menos 2 agudiza√ß√Ķes no √ļltimo ano) desde o in√≠cio de 2014.
Sendo Diretor do Serviço de Pneumologia da ULSAM, fui nomeado pelo Conselho de Administração para responsável do Projeto, no sentido de garantir um acompanhamento possível nas 24 horas dos doentes em Programa.
Durante o período de trabalho envolvi a equipa de enfermagem da Unidade de Cuidados Intensivos da ULSAM, coordenada pelo Enfermeiro João Silva, bem como a parte técnica, envolvida na equipa com um papel importante em termos de ligação aos doentes no terreno, quer no que concerne à formação dos doentes e cuidadores, quer na resolução dos problemas técnicos pontuais.
Os dispositivos de monitorização, disponibilizados aos doentes com tecnologia sem fios, e a plataforma de monitorização permitem a transmissão automática, com intervenção mínima dos doentes ou cuidadores, dos dados biométricos necessários para seguimento dos doentes.
A evolu√ß√£o dos dados dos doentes √© seguida na central de monitoriza√ß√£o da plataforma no Hospital, pela equipa designada para acompanhamento dos mesmos, permitindo uma interven√ß√£o atempada no controlo de situa√ß√Ķes e antecipando agudiza√ß√Ķes.
Foi definido pela equipa clínica um algoritmo adaptado a cada doente, com alertas bem definidos, permitindo intervenção em tempo real, pela equipa de enfermagem na primeira linha, com apoio médico na retaguarda. Esta intervenção é feita sempre pelo contacto telefónico e, sempre que possível, com o doente.

4.Quais as maiores dificuldades na gestão da mudança durante o processo de implementação?
O processo de implementação do Projeto e a sua manutenção até ao momento exige um esforço acrescido da equipa clínica, médica e de enfermagem, pois a sua intervenção decorre no período laboral sem prejuízo do mesmo.

5.De que forma decorreu a aceitação do projeto, quer pelos doentes, quer pelos cuidadores informais?
N√£o havendo uma adequada literacia em sa√ļde em Portugal, e no Alto Minho em particular, e destacando a escolaridade m√≠nima nos nossos doentes, houve alguma dificuldade inicial de adapta√ß√£o que foi ultrapassada pelo desempenho da equipa multidisciplinar do Projeto que criou condi√ß√Ķes adequadas de confian√ßa com o doente e fam√≠lia /cuidadores.
A adaptação da tecnologia ao doente, e não o inverso, bem como a relação humana estabelecida entre ambas as partes facilitou todo o processo de integração havendo até hoje uma adesão de 100% e contactos frequentes dos doentes com a equipa clínica nomeadamente de enfermagem.

6. Até à data, quantos pacientes já beneficiaram da telemonitorização?
Qual o balanço feito deste projeto?
Desde abril de 2014 até à data, 24 doentes com DPOC já beneficiaram do Programa de Telemonitorização na ULSAM. O balanço é extremamente positivo traduzindo-se, ao fim de 12 meses, numa redução de idas ao Serviço de Urgência de cerca de 50% e numa redução dos internamentos superior a 70%.
A interven√ß√£o m√©dica tem sido menor do que previsto, tendo a equipa de enfermagem resolvido a maior parte das interven√ß√Ķes necess√°rias.
Também o grau de satisfação dos doentes e famílias é bastante positivo sendo que, 94,6% consideraram que o projeto beneficiou a família, 94,6% consideraram que o Projeto diminuiu os níveis de ansiedade relativamente à doença e 96,4% consideraram que o projeto ajudou a lidar melhor com os sintomas e a compreender a doença.
(question√°rios elaborados pelo Ex-Grupo de Trabalho de Telemedicina para o efeito).

7. Que recomenda√ß√Ķes daria a profissionais interessados em iniciar a telemonitoriza√ß√£o?
Conhecer muito bem as carater√≠sticas e condi√ß√Ķes de vida dos doentes alvo, selecionando, obviamente com cuidado, a solu√ß√£o tecnol√≥gica e perceber a import√Ęncia que esta pode ter na ajuda do doente com DPOC.
A tecnologia deve sempre ser adaptada ao doente e não o inverso, e o sucesso passa sempre pelo trabalho de equipa, devendo o clínico ter o papel principal sempre com a colaboração da equipa técnica. A empatia criada com o doente e com o cuidador é fundamental.

8. O sistema de teleconsultas est√° a crescer no Servi√ßo Nacional de Sa√ļde. Considera uma tend√™ncia irrevers√≠vel?
Penso que sim, mas tenho algumas reservas na utiliza√ß√£o da teleconsulta em doen√ßas respirat√≥rias. J√° sobre a Telemonitoriza√ß√£o com as ferramentas adequadas n√£o tenho qualquer d√ļvida, mas tem que ser racional e ponderada e n√£o esquecer a import√Ęncia que deve prevalecer na rela√ß√£o m√©dico /enfermeiro/t√©cnico/doente /cuidador.

9. Quais os maiores ganhos da Telesa√ļde para o SNS? E que futuro prev√™ para a telemedicina em Portugal?
Sou cada vez mais apologista da intervenção no doente crónico, nomeadamente no doente com DPOC com as suas comorbilidades, no domicílio (seu habitat natural) nas suas várias facetas, quer preventivas, quer terapêuticas.
A teleconsulta com adequada interação com os médicos de Medicina Geral e Familiar, suportada na Telemonitorização profissional, no domicílio, pode permitir uma intervenção mais precoce e eficaz no doente com DPOC, evitando a sua ida ao Hospital, quer em agudização, quer para Consulta especializada de rotina, com desconforto e encargos acrescidos para o doente e família, sem resultados positivos.
A economia de recursos financeiros e de pessoal, como se comprovou, é uma mais-valia.

10.Enquanto utilizador dos SI da Sa√ļde, que √°reas de atua√ß√£o considera priorit√°rias?
Tratando-se de um processo novo que revolucionará a abordagem do doente crónico, em particular o doente com DPOC, deverá haver uma linha de financiamento vertical, no sentido de nos ajudar a passar sem percalços para o novo paradigma de intervenção, numa patologia crónica tão prevalente como é a DPOC, uma vez que não é possível, administrativamente, transferir custos fixos de um lado para o outro.

 

Reportagem à SIC em 15/2/2017